CORREIO BRAZILIENSE (DF) • CIDADES • 28/9/2009 Motor amigo da natureza Projeto de carro elétrico, prioridade das grandes montadoras, tem em Brasília um forte aliado: um engenheiro de computação que desenvolveu um modelo capaz de se mover com essa fonte alternativa Juliana Boechat Juliana Boechat Parece um carro comum. Mas basta abrir o capô do Gol branco, modelo 2008, para perceber que o veículo é único em Brasília. No lugar do motor a combustão, estão o propulsor elétrico e seu controlador de rotação. O porta-malas é um terço menor do que os outros porque, em vez do estepe, lá estão as células de bateria que fazem o carro funcionar. Em vez de tanque de gasolina, uma espécie de tomada para carregar o veículo. Esse é o primeiro carro elétrico de Brasília, desenvolvido pelo engenheiro de computação e morador da Asa Norte Elifas Gurgel. O investimento chegará a quase R$ 60 mil, sem contar o preço de compra do carro. A economia, no entanto, deverá ser de 80% em relação ao antigo gasto com gasolina. Além de engenheiro, Gurgel é ex-coronel do Exército e ex-funcionário da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A velha vontade de mexer com o carro elétrico nunca se concretizou devido à grande carga horária de trabalho. Hoje, como consultor em engenharia de comunicação, ganhou tempo livre para colocar em prática o sonho. Com a iniciativa, Gurgel uniu o conhecimento de engenheiro à preocupação de preservar o Meio Ambiente. “Os veículos produzem malefício ao aquecimento global. O desenvolvimento de carros elétricos se compara a uma nova revolução industrial. Acredito que estamos devendo 20% da natureza, já estamos no cheque especial”, criticou. O trabalho de Gurgel começou em junho do ano passado, quando ele comprou o carro zero-quilômetro. Em seguida, participou de um workshop sobre conversão de veículos nos Estados Unidos. “O Brasil está atrasado e dependente. A indústria que está aqui não é daqui. Mas o Brasil precisa quebrar as amarras de forma corajosa”, avaliou. No fim de 2008, ele começou a enfrentar algumas burocracias e a idealizar as mudanças. No início deste ano, desmontou o carro. Utilizou oficinas de colegas, um espaço no Museu do Automóvel e até mesmo a própria garagem para cuidar da reconstrução interna do automóvel. Gurgel inaugurou o produto final nas ruas de Brasília em julho deste ano. economia O Gol ainda está passando por testes e esperando a regulamentação do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) para poder rodar sem problemas (veja O que diz a lei). Com as baterias atuais, o carro tem autonomia de 50km. Por isso, Gurgel ainda não usa o veículo para realizar as tarefas do dia a dia. Ele encomendou baterias de lítio previstas para chegar em outubro próximo. Com a melhoria, o carro poderá andar 150km sem ser recarregado. “Até mesmo um táxi, que roda cerca de 200km por dia, poderá usar o motor elétrico. Além de ser um método econômico, 90% da bateria é reciclável. Ou seja, é mais uma forma de evitar a contaminação do Meio Ambiente”, explicou. Enquanto isso, ele expõe sua invenção em feiras e mantém o Clube do Carro Elétrico, em que conscientiza as pessoas a optarem por esse tipo de motorização. Todas as peças do Gol tiveram acabamento profissional — carpetes novos para a caixa das baterias no porta-malas, espuma entre algumas peças e o carro para diminuir o barulho da vibração e a parte de ferro na cor do veículo. O carro ainda tem cheiro de novo e todos os detalhes de fábrica são cromados. Em uma mesinha instalada na varanda de seu apartamento, na 703 Norte, Gurgel cria e monta pequenas peças que ainda deverão incrementar o veículo elétrico. Nesse espaço, ele trabalhou nos equipamentos de acoplamento do motor ao câmbio e agora desenvolve um sensor de temperatura. O engenheiro também pretende transformar o atual medidor de gasolina em um pequeno painel que mostra quanta energia ainda resta no carro. Em seis horas, o veículo está totalmente carregado. “É como celular. Você dorme enquanto carrega. No dia seguinte, usa o tempo inteiro”, comparou Gurgel. Para carregar a bateria, ele instalou uma espécie de tomada na pilastra próxima à sua vaga na garagem. Com um cabo, liga a corrente de energia ao antigo tanque de gasolina do carro. O gasto é descontado na conta de luz da casa do engenheiro, que também fez uma ligação elétrica para evitar o aumento da energia do prédio em geral. “O motor elétrico é 90% mais eficiente que o motor a combustão. Do petróleo colocado no carro, apenas 15% se transformam em energia motora”, contou. Gurgel sempre gostou de tecnologia. Comprou o primeiro carro, um Chevrolet 51, com o dinheiro que ganhou fazendo consertos de televisão. Hoje, o nível de transporte é outro. Ao dar a partida, o Gol elétrico faz um pequeno zumbido. Em poucos minutos, o motor fica mais silencioso que o de um carro comum. O único barulho vem do rolamento do pneu no chão. Orgulhoso do trabalho, Gurgel sonha com muito mais: “Quero criar uma indústria de veículos elétricos no Brasil”. O número 150 km Média almejada de autonomia de rodagem do Gol adaptado com baterias de lítio O que diz a lei O Artigo 123 do Código de Trânsito Brasileiro considera obrigatória a expedição de novo Certificado de Registro de Veículo quando: - for transferida a propriedade; - o proprietário mudar o Município de domicílio ou residência; - for alterada qualquer característica do veículo; - houver mudança de categoria. Confira A conversão do carro, passo a passo, e um pouco mais do trabalho de Elifas Gurgel podem ser encontrados no site www.clubedocarroeletrico.com.br.
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